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Gran Teatro de Habana no paseo del Prado |
Memórias
de uma viagem tropical (revisitadas e revistas) há 20 anos*
Passados vinte anos e
desfolhando o álbum da memória, palpita nos sentimentos a alegria do sabor
daquele distante, presente, vivido como lembranças que perduram para sempre na
vitrina dos belos momentos de toda uma viagem de sonhos.
Naquele três de
outubro de mil novecentos e noventa e sete, às cinco da manhã, inicia-se a partida
rumo ao aeroporto de Vigo ali na vizinha Galiza com destino até Havana/Cuba.
Antes da saída de Ponte de Lima um breve ponto da situação - todo o pessoal
trouxe o passaporte? - Não falta um! - E o comandante não está no comando? - Esse
com a ansiedade rumou ao aeroporto de Vigo nas vésperas do dia do voo!
Assim se iniciou a
viagem daquele grupo de dez limianos, assíduos paradeiros da Rampinha. Ao
aterrarmos no aeroporto de Varadero/Cuba, houve um murmúrio de prenúncio ao
ouvido de um compincha “Quando saí de Cuba, deixei enterrado o meu coração”. As
aventuras e peripécias começaram a ser rodadas e filmadas em películas de deslumbramentos.
O comandante (El Xaxa) envolto na bandeira com a imagem de Che Guevara, vai á
revista das maletas e expõe os seus regalos para serem revisitados, desde
perfumes até peças íntimas.
Na viagem de autocarro
de Varadero a Havana, aproximadamente 110 quilómetros, muitas dúvidas e
inquietudes passaram pelas mentes. Chegados a La Habana, logo passamos a ser
“habaneros” no lindo hall do Hotel Plaza, recebidos com a famosa canção
“Comandante Che Guevara” do trovador Carlos Puebla.
Com o entusiasmo já de
si apoderado, alguém abandonou a maleta; que outro alguém a transportou para o
quarto número tantos de tal do hotel. Refeitos do cansaço da longa viagem de
imensas horas, começaram os percursos pelas ruas de Havana em que os momentos
vividos passaram a ser retratos gravados na retina das recordações do grupo.
Nos dias da estadia em terras caribenhas
nasceu o ritual não programado, andassem por onde andassem, todos os dias às
cinco da tarde comparência de um a um no Bar do Plaza, tremendos e longos
encontros de convívio pela noite adentro com estórias assombrosas e
imprevistas, até ao ponto de criar a ilusória dúvida nos trabalhadores do hotel,
de se, em Portugal se dormia?
Num dia daqueles de
outubro, aconteceu a repentina surpresa de o eufórico anúncio por dois afoitos
boémios em terras habaneras - Pessoal, hoje fizemos contrato com um grupo
musical que canta a nossa canção “Coimbra”, às tantas horas estão cá no hotel
para actuarem. Deu raia porque o “cachet”
não foi bem negociado e não houve actuação! Tremenda confusão sanada com
elevação, respeito e determinação.
Na prodigiosa Havana,
cidade de autêntico feitiço na beleza das fachadas coloridas das suas casas e
nobre em património monumental e arquitectónico; registamos momentos únicos no
diário da viagem, postados ainda hoje no álbum das imagens da mente:
deslumbrante paisagem lá da açoteia da casa do António, uns brindes de recepção
e de apresentações, uns tragos de rum, conversas pitorescas e algumas anedotas
rocambolescas à mistura; daí partimos os “alcunhados de 3ª. Idade” até ao
famoso “El Pátio da Catedral” um dos locais mais belos e agradáveis do Centro
Histórico de Havana, uma inesquecível tarde de música ao vivo, completada com
um fabuloso sorteio de uma estatueta premiada para quatro “habaneros” portugueses
de Ponte de Lima; Na famosa Floridita “cuna do daiquiri” saboreamos a famosa
bebida predileta do grande escritor Ernest Hemingway; na mesma rota entramos na
Bodeguita del Medio “catedral do mojito” bebida saborosa, tipo coquetel com
folhas de hortelã. Restaurante/bar com discreta vigilância de segurança por
naquele ano de 1997 em setembro; um mês antes de a nossa visita ter sido alvo
de atentado terrorista, uma bomba explodiu no restaurante e várias dezenas de
pessoas ficaram feridas. Desconhecedor na altura deste vil acontecimento, um
dos membros do grupo expressava amedrontado; é rapaziada, não acreditais, mas
parece que estamos a ser perseguidos?
Numa tarde admirável
passada de visita ao edifício mais emblemático de Havana, o Capitólio, majestosa
e histórica edificação, desfrutamos do excecional e riquíssimo historial do seu
interior. Relaxados e tranquilos na esplanada do imenso varandim com uma vista
privilegiada e deslumbrante do “Paseo del Prado”, percurso de gentes com salsa
e rumba no andar; com trova e boleros na voz; gente imaginativa, alegre,
inteligente, solidária e internacionalista, que traz na sua cubania o labor de
“Pátria é humanidade, testemunho de José Marti”. Um Povo que faz do imenso
Malecón a sua bandeira que agita a alma e a beleza da Cuba linda Cuba.
Antes que acabe o rolo
do filme, aqui vai a projecção de uns slides maravilhosos e aventureiros desta
viagem tropical: em dois carros alugados, os dez componentes do grupo foram de
viagem até Varadero, não houve lagosta para ninguém, só uns furos nos pneus
durante o trajecto e guajiros (campesinos) nos seus cavalos empunhando o seu
machete (facão de mato) nas suas lides campesinas; A fabulosa noite no Palácio
da Salsa com a dança do abana “cu” e com direito a desfilar pelo palco; O
verdadeiro e deslumbrante espectáculo no mítico Tropicana um dos melhores shows
do mundo de cabaret ao ar livre, autêntico paraíso debaixo das estrelas; Na
noite da despedida, o cubaníssimo jantar no Paladares com a solenidade
adquirida para uma cerimónia de deixar a marca solidária limiana, e dizer até
sempre Cuba!
Fim do relato
revisitado e revisado em jeito de lembranças, não vamos gastar a fita toda do
filme para que a lente da memória, de cada um dos dez (agora nove) que formavam
o grupo, se projecte no seu diário da viagem há vinte anos a Cuba, nascida das
sempre boas ideias, dos convívios e das iniciativas, da mítica Cervejaria
Rampinha, arquitetadas pelo sempre presente Luis Tavares.
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Em Havana/Cuba em Outubro de 1997 |
Rumbando
Com café e rum
na mesa tropical
servidos em louça
cristalina
irradiando toques de
tranquilidade
em tarde amena de outubro
Toalha de aventuras
pintadas em aguarelas
sonhadas da eterna firmeza
dos encontros
de agosto
essência de criatividade
mítica
força dos quadros memoriais
da guevariana Rampinha
Com café e rum
transitando por caminhos
fraguados com sombras
míticas
das imperiais Palmeiras
em tarde amena de outubro
Em passos suaves de rumba
fazendo tremer a terra distante
com suaves gestos
nostálgicos
tocados na batida dos
tambores
rumbando a café e rum
Na mesa tropical dos sonhos
feitos ternura
solidária
transitando por caminhos
tropicais
rumbando com café e rum
em tarde amena de outubro
Rua do Souto, 15 de agosto de 2012
Rua do Souto, 15 de agosto de 2012
Tarquínio Vieira
* Ponte de Lima, “crónica revista” em 2017
Tarquínio Vieira