sábado, 27 de agosto de 2016

As feiras novas ornamentadas de futuro

As Feiras Novas ornamentadas de futuro

Em setembro as badaladas festivas dos sinos propagam o fervilhar dos ensejos pelo primeiro dia, dos três de sempre, das festividades anunciadas no estalejar dos foguetes da alvorada, que despertam paixões de folia, de cantares e de amores sonhados no travesseiro da romaria engalanada de tradições e perfumada de costumes do minho dos tons verdes da esperança e da liberdade.

No futuro do mundo melhor, que há-de chegar, as feiras novas anunciadas pelos homens e pelas mulheres de trabalho lá do cimo do arco da porta-nova, festejam-se com vinho verde servido das canecas de loiça fina, produzidas pela arte das mãos dos operários das fábricas de cerâmica, e bebido nas tigelas que deixam ficar um rasto de bigode do néctar esguichado pela torneira das pipas de madeira talhadas pelos tanoeiros com pancadas firmes calejadas na labuta a darem o mote à arte ao vivo dos artesãos que com criatividade decoram as artérias dos percursos dos novos caminhos desta romaria venturosa abraçada pelo povo fiel do minho.
    
Lá dos cantos do coração bordado do minho vêm as gentes de todas as idades, pura cêpa da montra das tradições genuínas, elegantemente trajados com as roupas de linho, de algodão ou de estopa e, os vistosos lenços estampados, a colorir a alegria dos terreiros da festa, marcando a pauta da essência das Feiras Novas, que fazem o requinte da beleza e o deslumbramento dos olhares forasteiros.

Avistamos as ruas, os largos e as praças, estampadas com pigmentos de cores alegres, misturadas com o roxo e o amarelo da bandeira limiana, numa coloração ornamental e de luz, projectadas, nos espaços dos caminhos cintilantes de cenários renovados de o bom do velho com o novo do provir, guardado no cantinho festivo da folia das gentes do campo, das vilas e das cidades.

Com vénias de chapéu alto descem a rampa do pinheiro ao largo dos coretos, em balançar cerimonioso os gigantones e os cabeçudos em animada corte à aparentada “maria de ponte”, figura mítica de simbolismos “desamarrada para mostrar a força das tradições minhotas, com traços do passado e sonhos de futuro”, contagiando todos os foliões com os seus ritmos e alegria. 

Naquele advir, o areal está reposto de areias finas reluzentes e vidradas que emolduram as águas transparentes do rio. As tendas; ordenadas com os toldos brancos, irradiam azafamas de mercar, as frutas dos pomares das nossas aldeias, deixam no ar o aroma do campo, as galinhas, os coelhos, os bacorinhos são a mostra viva do renascer da agricultura no pregão das lavradeiras e dos lavradores; a venderem os produtos das colheitas agrícolas certificados pela técnica cientifica de novas sabedorias das outrora feiras das trocas.

Acolá; da frondosa avenida das avenidas, engalanada com honra e preceito, vem a ressonância dos ecos do cantar ao desafio no mercado municipal, reconstruído com a sua traça original. Nos despiques de desgarrada o cantador em pose traquina, afiando a bigodaça; atira: tem cuidado oh desafiador, que o verde vinhão, na malga de porcelana, com riscas da cor do céu, pode ter espinhos; ao depois ficas engasgado, não podes respingar mais, a armação da treta, das quadras sem rima. – O desafiador em bico de pés, todo emproado; na brilhantina do penteado, replica: oh cantador não me venhas, com tretas de mosca morta, deixa-te de faenas de trauliteiro; neste meu desafiar te digo, não sou homem de medos, pego na tigela, boto meio-quartilho; de verde tinto, brindando ao povo humilde, que não se cansa, de labutar pela vida melhor -. 
          
Além-do-rio; pelo tapete lajeado das pontes, chega a charanga das “marias dos arraiais” a cantar a nova versão de ao passar a ribeirinha pus o pé, e molhei a meia; a multidão num mar da vida, ecoa a tradição das cantigas de amigo e de amor; iluminadas no jogo de luzes das janelas enfeitadas. Do lado da alameda dos feirantes; sobe a rusga do “zé do laço” a trautear ó malhão, malhão, a puxar um vira minhoto bem batido pela noite adentro até á hora do imponente arraial de fogo-de-artifício.

Ali-à-frente; no terreiro da fonte de são João, está pegada a serenata brindada pela escola de cavaquinhos “Barros & Quintelas” dedilhando sublimes trechos musicais de cordas afinadas, em apaixonados acordes de declarações de amor, a namorarem as cantigas folclóricas da cultura popular, que fazem o encanto dos rapazes e das raparigas que se galanteiam em olhares sedutores de noites namoradeiras em dias de romaria. 

Aqui e agora; pela passadeira vermelha das partituras da arte musical, desfilam as bandas; procriadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que ao som da cadência do compasso de toque de caixa vão a caminho do cenário maior, o Coreto, para tocarem sem perturbações de sons alheios ou ruídos poluentes durante a sua actuação, as peças que deliciam as emoções dos apreciadores da arte secular da execução das obras musicais das bandas filarmónicas.

Com arruadas de culto pautadas em tributo de vibrações musicais damos mote ao trecho das notas escritas, que são fraguadas no Ensaio sobre a história das Bandas Filarmónicas: “Ao compararmos os programas das actuações das bandas no momento presente com os de há um século ou mais, vemos que os seus níveis subiram a um ponto em que as diferenças entre as profissionais e as amadoras se esbateram. Isso contribuirá para o aumento da cultura das pessoas e para o seu bem-estar real, na medida em que a música é a arte que mais benefícios produz na saúde e contribui para a libertação de cada qual”.

Ao final; já com os acordes da melodia “quero ir às feiras novas” a bailar nos corpos fatigados, os moços tirando os chapéus, fazem promessas de folia às formosas moçoilas que com os lenços estampados de cores minhotas na cabeça, para se protegerem do sol que nasce todos os dias para todos nós, juram, com contas de fios dourados, preservarem as raízes das tradições populares e genuínas da romaria mais querida das gentes de pura cêpa que trazem nas entranhas as Feiras Novas ornamentadas de futuro.

Hoje no mundo globalizado, desordenado e desumanizado formatado para apagar a memória dos povos com a falácia de que os tempos são outros. É de pergaminhos em defesa dos usos e costumes apregoar aos quatro ventos que os tempos verdadeiros são sempre modernos e construídos da memória histórica, não seria de bom-tom ignorar o que nos ensinaram os mestres “esquecer o passado é comprometer o futuro”, portanto feiras novas sem memória deixarão de ser as Feiras Novas de todos os tempos.

Ponte de Lima, 27 de agosto de 2016                                               

Tarquínio Vieira

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