sábado, 22 de março de 2014

40 CRAVOS DE ABRIL

40 CRAVOS DE ABRIL

Na ponta da esfera da luta
rodam sonhos
pintados das mãos
cristalinas de crianças
em quarenta cravos de Abril
no cano da espingarda
da paz, do trabalho e do pão!

Rua do Souto, 22 de Março de 2014
Tarquínio Vieira

sexta-feira, 14 de março de 2014

Vocabulário doentio para a democracia

Vocabulário doentio para a democracia

Tarquínio Vieira
14Março2014

A 40 anos do 25 de Abril de 1974 e a 38 anos do Poder Local Democrático é altamente doentio para a democracia e para a saúde civilizacional de um País e de um Povo deparar com o conteúdo da entrevista de um autarca com grandes responsabilidades (Vice Presidente) no município de Ponte de Lima, como a recentemente dada a um órgão de comunicação social local.

Quando intelectualmente a inteligência política foge para a linguagem da arruaça, do desrespeito pelos munícipes e para a arrogância do pedantismo político, a democracia é ultrajada e o poder local democrático é rebaixado ao nível do vírus antidemocrático do caciquismo.

A conduta imaculada é saber com humildade respeitar os munícipes em todas as vertentes da cidadania e não recorrer ao palavreado do politicamente arrogante com pretensões de rotular os cidadãos e as cidadãs pontelimenses de não saberem comportar-se em aspectos da sua vida quotidiana.


Como munícipe limiano fiquei arrepiado por tanto e muitíssimo vocabulário politicamente caciqueiro, acompanhado de historietas oportunistas e habilidosas para se chegar ao poder. Assim o poder local não é dignificado e a democracia é ameaçada por comportamentos contrários ao espirito do 25 de Abril que restituiu ao povo português a dignidade de ter direito a viver a plenitude da liberdade e da democracia sem mais nunca imperarem os tiques bafientos da longa noite fascista de tão má memória.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Modernidade

Modernidade

Da teia peçonhenta
desenovela o fio de tormenta
em catadupas de mentiras
como corpos gelados
em tempos negros
de recessão civilizacional

Rua do Souto, 12Nov2013
Tarquínio Vieira



sábado, 22 de junho de 2013

De quantas coisas não preciso para ser feliz

Frei Betto – De quantas coisas não preciso para ser feliz

Post_FreiBetto_PasseioSocrático

DE QUANTAS COISAS NÃO PRECISO PARA SER FELIZ

Frei Betto*

“Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.”
Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã… ‘ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!
Estamos construindo super homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático. ‘ Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:
“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”
* Carlos Alberto Libânio Christo nasceu no ano de 1944, em Belo Horizonte, MG. Filho de um cronista do jornal Estado de Minas e de uma autora de livros sobre culinária manifestou desde cedo a vocação para a escrita. Em 1965, entrou para o convento dos dominicanos, onde se tornou frade. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia.
Como jornalista, atuou na Revista Realidade e no jornal Folha da Tarde desafiando a censura do regime militar. Foi preso político de 1969 até 1973.
Foi a partir de um livro publicado nesse período que ganhou renome nacional e internacional. Com o livro Batismo de sangue, de 1983, ganhou o Jabuti, principal prêmio literário do Brasil.
Assessor da Pastoral Operária e de movimentos populares, colabora com vários jornais e revistas.
Algumas obras já publicadas: Castas da prisão, 1974; O fermento na massa, 1981; O dia de Ângelo, 1987; Essa escola chamada vida, 1988 (em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho); A menina e o Alfabetto, autobiografia escolar, 2002”. 
[blogmede]
Frase_Frei_Betto_para texto

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Vasos acesos de manjericos

Vasos acesos de manjericos             

Lá pr’as bandas da alameda
tilinta o toque altivo
dos sonoros sininhos
da linda capelinha
a afinarem o tom de compasso
da folia dos enamorados
a saltar à fogueira
dos desejos ardentes

No raiar do Sol
desperta
o pomposo fontanário
engalanado
de festões coloridos
nos pavios empinados
dos balões de papel
quadras populares
acesas
em vasos de manjericos

A rapaziada aperaltada e pegadinha
apinhada de bandeiras e balões
brilha no requintado terreiro das arruadas
ao som das rapsódias da banda filarmónica
bailando repenicadas danças joaninas
expressão corporal de passos a suar em bica

Com alegria contagiante
desfilam com arquinhos e balões
figurantes rapioqueiros
cenários vivos do povo engenhoso
das marchas populares de S.João
vestidas com trajes coloridos de ternuras
em vasos acesos de manjericos

Rua de Souto, ano de 2013

Tarquínio Vieira

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Evocação



EVOCAÇÃO
LUIS DANTAS

Nasceu em Ponte de Lima a 3 de Agosto de 1946
Faleceu em Lisboa a 20 de Maio de 2011 

Vou a caminho do Chiado
para tomarmos um café de saco
 na Brazileira

Tertulias
No sítio da chávena das tertúlias
assento de quimeras faladas
o poeta da escrita humana
com todas as letras do alfabeto
palestrava em prosa indignada
contra a decadência da palavra
ruina da identidade da cultura d´um povo

P’las vielas da escrita límpida
o poeta das letras penetrantes
escrevia em lousas de letras gravadas
a autoridade do eco das palavras
abecedário da força criativa
da literatura do homem simples

P’los cânticos da Rua da Saudade
o poeta da escrita lírica de povo
caminhava nos trilhos das canetas de prosa
clamando sonhos de utopia
evolução de tertúlias civilizacionais
cadernos falados em xisto da verdade

Epílogo da obra literária do homem simples dos tempos

Rua do Souto, ano de 2013
Tarquínio Vieira
Na Sapataria em frente ao Colégio D.Maria Pia em tempo de pausa de escola





sexta-feira, 10 de maio de 2013

Comer e calar

Comer e calar

Figurões sinistros
bebereiam imoralidades
venenosas e exterminadoras
do mundo civilizacional

A barbárie anda à solta
nos pedestais dos mídias da ignorância
com as correntes da escravatura
a proclamar a morte
das liberdades e dos direitos conquistados

Comer e calar? Não!

 Rua do Souto, 10 de Maio de 2013
Tarquínio Vieira